quinta-feira, 20 de julho de 2017

O Ministério da Cultura não é o Leite Moça!

Imaginemos que a Esplanada dos Ministérios seja um grande supermercado com duas prateleiras lotadas de prédios, ou melhor, produtos dos mais variados tipos. Imaginemos que o governo de turno seja um pai ou uma mãe que resolve dar ao filho predileto um vale-compra, o direito de escolher os produtos – ministérios - mais interessantes e de melhor qualidade- com maior orçamento e quantidade de cargos “de confiança”. O filho predileto escolhe os de primeira qualidade, nada de marca própria do supermercado. O filho medalha de prata também ganha um vale-compra, embora de menor valor e que só pode ser usado depois de finalizada a compra do filho predileto. Vai então o filho segundo lugar escolher seus produtos. As prateleiras já estão um tanto vazias, mas ainda é possível selecionar alguns de qualidade superior. O filho temporão, coitado, indesejado porque fruto do azar, de um estouro de camisinha, é agraciado com um vale-compra de valor irrisório, suficiente apenas para a famosa “xepa”, o resto do resto, a sobra, enfim, para os produtos genéricos. Bom, pensa ele, é melhor do que nada, de fome não morro.

Pensei nesta metáfora do supermercado e dos vales-compra observando a situação atual do Ministério da Cultura. Suas atividades correm o risco de serem paralisadas no próximo mês de agosto fruto do brutal corte orçamentário que, embora tendo atingido todas as pastas, teve maior impacto proporcional sobre o MinC – produto genérico e de qualidade duvidosa - devido ao seu já combalido orçamento inicial. O atual ministro que, na realidade, é interino há meses, já deixou claro que não tem intenção de permanecer no cargo e, constrangedoramente, é ignorado pelo Palácio do Planalto em sua demanda. Por fim, soube-se, nos últimos dias, através da imprensa, que o próximo titular da pasta deve ser de um partido – filho temporão - “leal” ao poder executivo nas votações envolvendo a solicitação de abertura de investigação sobre indícios de corrupção do presidente da república.


Resignemo-nos à prateleira dos coadjuvantes. Ser Leite Moça é para poucos. 


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Todos nós temos um preço

Todos nós temos um preço. Num diálogo antológico, Marcos, o personagem estelionatário de Ricardo Darín no épico Nove Rainhas pergunta a Juan, o cúmplice vigarista interlocutor, num banheiro público, se transaria com um homem. Juan diz que não. Então, Marcos pega um punhado de papel toalha, joga na bancada e pergunta se, por dez mil dólares, aceitaria. O interlocutor continua negando até o bolinho de dinheiro fictício chegar aos quinhentos mil dólares. Neste momento, Juan rateia, o breve silêncio denunciando sua dúvida diante da proposta indecente. Marcos Darín conclui, entre realista e sarcástico:

- Não há santos, o que há são tarifas distintas. (...) Putos não faltam, faltam financiadores.

Outro dia, um amigo, com reais perspectivas de mudança para o outro lado do mundo junto com mulher e filho, e preocupado com a possibilidade de não ter um copo para compartilhar no boteco da esquina (na China tem boteco?), um ombro para compartilhar os desgostos do casamento, e animado com o prêmio da Mega-Sena, cerca de 36 milhões de reais naquela semana, resolveu brincar de Marcos.

Depois de ganhar a bolada e de escolher Paris ou uma cidadezinha no sul da Itália como destino da aposentadoria, meu amigo sugere que eu o acompanhe, tal qual uma dama de companhia, mediante certo pagamento mensal depositado em conta corrente aberta especificamente para este fim. Começamos a discutir os termos do contrato e o valor da remuneração, chegando-se à conclusão de que quinze mil euros é um valor justo, afinal, estarei à sua disposição vinte e quatro horas por dia, inclusive para favores sexuais em caso de dor de cabeça da digníssima esposa, tenho curso superior, sou agradável e não faço má figura. Meu amigo regateou um pouco no valor, mas acabou consentindo. Tratou de acalmar-me, dizendo que não ficaria no meu pé, que não exigiria muito dos meus serviços, quaisquer serviços, diga-se de passagem, talvez duas vezes por semana (!). Não há almoço grátis...

Bom, a Mega-Sena acumulou. A próxima vai pagar 45 milhões de reais. Os quinze mil euros viraram dezoito.


E você? Qual o seu preço?


terça-feira, 11 de julho de 2017

Piada de mau gosto

Sábado passado, o Flamengo venceu o Vasco em plena cancha de São Januário, naquela que os cruzmaltinos gostam de chamar de “colina histórica”. Fazia quatro décadas que o urubu não vencia ali, portanto, o magro placar de um a zero foi saboreado como uma autêntica goleada.  Fui dormir na vice-liderança do Campeonato Brasileiro.

No domingo, lindo dia de sol, fomos lagartear no Aterro do Flamengo. Perto de nós, no campo de terra batida, os peladeiros de final de semana se digladiavam descarregando a testosterona em quantidades nada desprezíveis de palavrões. A fumaça da churrasqueira improvisada era acompanhada de músicas de qualidade duvidosa, até que...

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo.
Flamengo sempre eu hei de ser.
É o meu maior prazer, vê-lo brilhar.
Seja na terra, seja no mar.
Vencer, vencer, vencer!
Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer.

Isso sim era música para nossos ouvidos. O hino seguiu até o fim, “Flamengo até morrer eu sou!”, e eu cantando junto, sob os olhares desdenhosos de Renata e indiferentes do Miguel. Digo, então:

- Fico com vontade de chorar só de ouvir esse hino.

Ao que a botafoguense despeitada provoca:

- Eu também, embora por motivos distintos...


E Miguel cai na gargalhada. Só não sei se ria da minha cara ou da piada de mau gosto da mãe.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Paciência tem limite, humano!

Sim, tenho nome de imperador, meu pelo é incrivelmente macio, meu focinho é incrivelmente rosa, meu perfil é digno de um felino de linhagem real apesar de minha pouca idade revelar-se no miado esganiçado, o que me faz perder pontos no quesito “ser levado a sério” pelos humanos que moram comigo. Aquele que se diz meu pai – vejam vocês que coisa curiosa, o sujeito tem oito anos de idade de gente e menos de metro e meio e já se auto intitula pai, nem fazer a cama o digníssimo faz quando acorda - gosta de me apertar nos momentos mais inapropriados, especialmente quando estou tirando aquele ronco bacana na poltrona da sala. Fica esfregando a cara na minha barriga, na minha cabeça, balbucia frases ininteligíveis, aparentemente vangloriando-se de me ter como filho, o que me orgulha, não por ele, mas por mim, afinal, gatos de pelo amarelo alaranjado ou laranja amarelado estão no topo da pirâmide de beleza e imponência. Para chamar a atenção, subo no móvel da televisão, atrapalho a galera que assiste aquela série chatérrima do Netflix e ameaço derrubar a enorme garrafa de vidro entupida de rolhas de vinho – os caras bebem que dá gosto de ver – que adorna o canto da sala. Se sinto fome, a qualquer hora, “guardo caixão” na cozinha dando tapinhas na tigela ou, minha estratégia preferida, toco o terror no quarto dos meus avós lá pelas cinco da manhã (a larica da madrugada), religiosamente todos os dias do ano, até que vovô Marcelo se manque, vovó Renata não liga pra mim e continua tirando, olimpicamente, seu merecido ronco.

Sim, meu nível de paciência é baixo. Que o diga papai Miguel. Dia desses, o cara resolver me pegar sem pedir licença, meio que na grosseria mesmo, amores brutos (eu ia dizer “amores perros”, os entendidos na língua de Cervantes sabem que “perros” significa cachorro, em alusão àquele filme mexicano, mas seria melhor falar de “amores felinos”) e não queria me largar de jeito algum. Sabe como é, comecei a me sentir sufocado, claustrofóbico, miei na educação, e a síndrome de Felícia mandando ver. Não teve jeito. Tasquei-lhe uma unhada na cara que, num primeiro momento, passou despercebido pelo pirralho. Felizmente, ele me largou e foi pra sala. Foi aí que vovô Marcelo pergunta ao papai o que havia acontecido com a sua cara. Pois é, estava “pintada” de vermelho. Sabe aqueles bebês que tropeçam e caem no chão e só começam a chorar quando os adultos chamam a atenção para o fato de ele ter caído no chão? Então, aconteceu a mesma coisa. Vovó Renata, percebendo o que aconteceu, levou papai para o banheiro e começou a limpar a área do talho, ele começou a chorar, claro, a assepsia ardia. Foi mexer com a pessoa (?) errada, deu no que deu.


Aparentemente, o episódio do Scarface deu sorte ao papai. Horas depois, subiu ao pódio do tradicional torneio de futebol de botão da pracinha São Salvador. Temos de repetir a dose, quem sabe na próxima ele sai campeão? 






terça-feira, 4 de julho de 2017

A mãe do Miguel

Neste último final de semana, morri de rir com a chamada de uma matéria d’O Globo: “Mesmo sem ‘inverno glacial’, cariocas usam luvas, gorros e até aquecedor”. Havia a possibilidade de a cidade do Rio de Janeiro registrar as tardes mais frias do ano, com temperaturas variando entre terríveis dezenove e vinte e um graus. No sábado, dois amigos do Miguel foram lá pra casa e, bem de acordo com o espírito alpino que fingimos compartilhar nestes dias mais frescos, a mãe do Miguel resolveu fazer um “fondue au fromage” que fez bastante sucesso inclusive com o amigo francês, cujo paladar acostumado aos melhores queijos e baguetes poderia muito bem esnobar a versão tropical, embora preparada com todo o esmero. O pequeno gaulês curtiu a focaccia caseira feita também pela mãe do Miguel, mais até do que a baguete, esta sim comprada no mercado a peso de ouro. Na manhã de domingo, o banquete continuou. Só havia dois waffles no congelador e três boquinhas nervosas. A mãe do Miguel, então, decide oferecer panquecas feitas na hora, “made from scratch” como diriam os ingleses, com geleia de framboesa, gotas de chocolate, requeijão ou uma singela manteiga. Sabe como é, no inverno a fome aumenta.


Todos bem alimentados, hora de brincar e gastar as calorias. Isto inclui, é claro, a mãe do Miguel. Afinal, não basta ser mãe, tem que participar...