terça-feira, 23 de maio de 2017

O lixo nosso de cada dia

Após uma obra emergencial na tubulação de gás do edifício onde moro, que nos obrigou a tomar banho gelado por vários dias, a montanha de entulho resultante foi “acondicionada” entre tapumes no meio-fio em frente à portaria. Imaginei, ingenuamente, que a empresa responsável pelo serviço retiraria a lixarada, mas os dias foram passando e nada. Muito antes pelo contrário, ao entulho já depositado, foi sendo adicionado todo tipo de objeto que os passantes se viam no direito de jogar, como se aquilo fosse uma grande lata de lixo. Sacos com restos de comida e garrafas de cerveja, muitas garrafas de cerveja. Além do mau cheiro e da possível infestação de baratas e ratos, a chuva criou um ambiente propício para o criadouro do Aedes Aegypti.

Anteontem, domingo, o ridículo: os tapumes haviam desaparecido, mas o lixo não, agora espalhado pela calçada, pelo meio-fio e já avançando para a rua. No final do dia, vi um gari da Companhia de Lixo Urbano – COMLURB retirando as montanhas de lixo produzidas pelos frequentadores da Praça São Salvador. Quando me encaminhava para lhe pedir, encarecidamente, que solicitasse ajuda a outros garis para limpar a porcaria deixada na frente de meu prédio e que, aparentemente, só incomodava a mim, vi que sua supervisora (ou algo parecido) acompanhava o serviço e decidi interpela-la cordialmente. Mais cordialmente ainda, ela me pediu o número do prédio para que fossem tomadas as devidas providências naquele mesmo dia.

Passados cerca de trinta minutos, eis que eles aparecem, o caminhão de lixo e a equipe de limpeza. O veículo para num dos lados do quadrilátero e os garis começam a retirada de sacos e sacos de lixo do das lixeiras espalhadas pela praça que, de tão cheias, não conseguem dar conta da produção de resíduos dos frequentadores. O caminhão anda mais um pouco e para logo adiante, depois de dobrar à direita. Novamente a equipe de limpeza trata de deixar o espaço mais sociável. Começo a perder as esperanças para a solução do meu problema. Ledo engano. O caminhão segue seu caminho e... dobra novamente à direita, contornando a praça e parando em frente ao meu prédio. Meus heróis saltam da traseira, onde costumam ficar dependurados durante os deslocamentos do veículo, e vejo, quase que com lágrimas nos olhos, a lixarada ser retirada e lançada para dentro da caçamba incineradora.

O desrespeito a direitos básicos do cidadão é tão corriqueiro, banal, que a reclamação por serviços públicos mal prestados virou esporte nacional, tradição, motivo de piada, tratada como se fosse algo inevitável, inscrito no DNA do Estado e da administração pública. É verdade que o Estado brasileiro foi construído sobre uma base patrimonialista, personalista, privatista, onde o compadrio e a submissão dos interesses do coletivo aos interesses privados contribuíram para a perpetuação de uma sociedade hierarquizada, praticamente “de castas”. O espaço público é relegado a segundo plano, é “terra de ninguém” e não “de todos” e, por ser “de ninguém”, muita gente se vê no direito de dilapidá-lo, pisoteá-lo, cuspi-lo, escarra-lo, um grande aterro sanitário. Os recentes casos de corrupção comprovam esta interpretação.

Então não há solução?

Sim, há. Ser ativo e cobrar do poder público aquilo que é de sua responsabilidade, por exemplo, a limpeza urbana. Ser ativo e cobrar do poder público uma educação pública de qualidade, e não esperar que os filhos entrem numa universidade pública de excelência depois de desprezar o ciclo fundamental e médio municipal e estadual. Botar a mão na massa. Ver o caminhão de lixo sumir no horizonte com o “meu” entulho deu uma sensação de prazer enorme, com toda a sinceridade. Senti-me respeitado.

O Estado é incompetente e irresponsável na medida em que a sociedade permite que ele o seja. Por outro lado, tal qual uma relação simbiótica, à responsabilidade que cabe ao poder público no cumprimento e respeito à lei corresponde uma série de obrigações correspondentes aos cidadãos.

Ver uma garrafa de cerveja vazia no lugar do finado entulho do dia anterior foi de amargar.  


Como diz um conhecido jornalista: “Me ajuda aí, pô!”.  


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Máscaras e sombras

A sociedade é um grande palco em que nós, atores, exercemos múltiplos papéis ao longo da peça que é a vida cotidiana. A cada contexto, a cada interação, pactuamos com os interlocutores as máscaras sociais que cada um deve usar. As inúmeras “representações do eu” carregam em si expectativas de comportamento, daquilo que é permitido fazer e falar. O bom exercício do papel esperado de cada uma das partes garante a fluidez, a “normalidade” das relações sociais, diminuindo a possibilidade de rupturas e tensões quanto à definição de fronteiras simbólicas entre os galhos que cada macaco deve ocupar. Pão, pão; queijo, queijo.

Um exemplo comezinho é a relação entre médico e paciente. Quando chega ao consultório, o paciente carrega consigo uma série de expectativas tanto do que irá encontrar no ambiente físico, no consultório, quanto do comportamento do profissional que irá atendê-lo, sua vestimenta – muitos médicos usam avental branco, com o nome e a especialidade bordados-, a linguagem adotada – a utilização de termos basicamente restritos aos iniciados na medicina – no sentido de comprovar o domínio do conhecimento científico-, além de objetos – diplomas acadêmicos, certificados de membro de associações profissionais, tanto melhor se internacionais - que reafirmam simbolicamente ao paciente que o profissional sentado ali, do outro lado da mesa, é de confiança. É claro que nada disso garante um bom atendimento e a resolução do problema, o que chamo a atenção é para o estabelecimento de papéis sociais e a expectativa de comportamentos necessários a partir da definição do contexto.

E os antropólogos?

Geralmente, são identificados como “aquele pessoal que estuda índio”, “alternativos”, se embrenham no meio da floresta pra fugir da civilização, são “da paz” porque gostam de relativizar a tudo e a todos, acham o maior barato a diversidade cultural e a diversidade sexual. Acham que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. É uma categoria de gente quase pitoresca, que não deve ser levada muito a sério, “viajam na maionese”, mas que é ótima para bater papo num churrasco e debater assuntos “polêmicos” à base de muita cerveja, de preferência. Às vezes são confundidos com os arqueólogos.

Eu sou antropólogo. Meus amigos me chamam de “Gabeira”, em referência ao Fernando Gabeira, jornalista, escritor e ex-deputado federal, homossexual assumido, que na década de 1980 agitava as praias cariocas com sua sunga cavadíssima. A alcunha não surgiu por minhas preferências sexuais, embora eu nunca diga que desta água não beberei, mas porque Gabeira já declarou abertamente que fuma maconha e defende a descriminalização das drogas. Para os meus amigos, aparentemente, o exercício do papel social de antropólogo, por ser considerado “exótico” e um tanto quanto “descolado” da realidade, está intimamente relacionado ao uso de substâncias que potencializem a capacidade de “viajar”. Ser chamado de “Gabeira” é quase uma categoria de acusação, no sentido de que a acusação serve para escancarar a transgressão de normas sociais (o uso de maconha), contribuindo para a estereotipia e estigma da antropologia, coisa de “maluco beleza”. 

O antropólogo, então, tem de ser que nem a mulher de César. Não basta ser doidão, tem que parecer doidão.


Alguém tem um baseado aí? 


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Metástase

Não sou adepto da igreja maradoniana, fundada por uns doidivanas portenhos em louvor ao maior jogador de futebol de todos os tempos, na visão deles. Contudo, reconheço em Dieguito um frasista de primeira grandeza. Na Copa de 86, a famosa “mão de deus” ajudou a Argentina na batalha futebolística das Malvinas. Oito anos depois, na senegalesca disputa no país do beisebol, pego num exame antidoping por uso de efedrina, substância proibida, depois do jogo contra a seleção nigeriana, fez a famosa declaração de que lhe haviam “cortado as pernas”.  Sua ferramenta de trabalho, seu meio de subsistência, era seu corpo, suas pernas, sua cabeça e (infelizmente para os ingleses) suas mãos e braços. A metáfora foi perfeita.

Lembrei-me de Maradona, insolitamente, ao ler as notícias sobre corrupção envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, e seu ex-secretário de saúde, Sérgio Côrtes, ambos presos no âmbito da Operação Fatura Exposta, que investiga desvios milionários na Secretaria Estadual de Saúde e no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, o INTO. Os desvios que levaram à prisão do ex-secretário são equivalentes ao dobro do orçamento anual do Hospital Municipal Souza Aguiar, considerado o hospital com a maior emergência pública da América do Sul. A fraude, aplicada nas regras de importação, permitiu que uma máfia formada por empresários e gestores públicos desviasse, por pelo menos 12 anos (2003-2014), de 40% a 60% de um total de R$ 500 milhões gastos pela Secretaria Estadual de Saúde e pelo INTO em compras internacionais de equipamentos médicos de alta complexidade, como macas elétricas, monitores transcutâneos, aparelhos cirúrgicos e unidade móveis de saúde.

Há cerca de dois anos, um faz-tudo conhecido nosso, desses que são bombeiro, eletricista, pintor, gasista e o que mais aparecer pela frente, a necessidade faz o homem, já diz o velho ditado, estava trabalhando no telhado da própria casa quando, por um descuido qualquer, veio abaixo. O instinto o fez tentar amortecer o impacto com o braço, o tiro saindo pela culatra, obviamente. Com o braço arrebentado, foi levado imediatamente para o Hospital Municipal Souza Aguiar, aquele mesmo cujo orçamento anual não faz cosquinha no montante desviado pela quadrilha capitaneada pelo ex-governador. Passou dias internado à espera de atendimento, em vão. Decidiu ir embora, por conta própria e assumindo os riscos. Entrou na fila do INTO, cujas instalações moderníssimas e profissionais capacitados não conseguem dar conta dos milhares de pacientes à espera de uma cirurgia ortopédica. Muitíssimos meses depois, nosso faz-tudo foi operado e pôde voltar à labuta. Sorte a dele, muita gente fica anos com dores homéricas até conseguir atendimento. Ganhou de volta seu braço, sua ferramenta de trabalho, que lhe haviam cortado não por exame antidoping, mas por corrupção e desvio de recursos públicos.

As semelhanças metafóricas entre Maradona e o faz-tudo param nas metáforas mesmo. Maradona, em 1994, já multimilionário, jogava por prazer, pela glória de levantar o caneco, pelo paparico da imprensa de seu país, para ser carregado em júbilo pela “hinchada” até o Obelisco da Avenida Nove de Julho, no centro de Buenos Aires. Nosso faz-tudo, desamparado, impotente e ao-deus-dará, vítima do descaso do Estado brasileiro carcomido pela corrupção endêmica e em acelerado processo de metástase, depende, e muito, de seu braço intacto, funcional, para sobreviver. Seu drama é o mesmo vivido por incontáveis brasileiros dependentes de serviços públicos que, embora garantidos na Constituição Federal, mais parecem peça de ficção lado B.


Alguém aí sabe a pena para o crime de corrupção lá na China?


terça-feira, 16 de maio de 2017

Miguel e a autoestima

Poucos homens tiram o fôlego de minha esposa, tirante este escrevinhador, por suposto. Um deles é, sem dúvida alguma, Fitzwilliam Darcy, mais conhecido nos círculos femininos (e certos masculinos também, desconfio) como Mr. Darcy, o herói de “Orgulho e preconceito”, romance escrito por Jane Austen há mais de dois séculos. Charmoso e muito rico, ele é inicialmente rejeitado pela mocinha Elizabeth Bennet, que o crê arrogante e esnobe. Isso até descobrir que Mr. Darcy é generoso, corajoso e muito apaixonado.

Em 1995, a rede britânica BBC adaptou o romance para a televisão, escolhendo como intérprete de Mr. Darcy o ator inglês Colin Firth. Firth tornou-se sex symbol a partir daí, identificado com o personagem, sobretudo após a cena em que mergulha no lago e deixa transparecer a camisa branca molhada. Sim, o aristocrata fleumático é o homem que muitas mulheres (e homens, também desconfio) sonham para dividir a alcova, viril e sensível. Nada de metrossexual, nada de hipster da Federal. Coube a Mr. Darcy uma das mais famosas declarações de amor da literatura inglesa: “Em vão tenho lutado comigo mesmo, mas nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos; preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo ardentemente”.

Pois bem. Ontem, a digníssima senhora me mostra um foto de Mr. Darcy/Colin Firth na tela do celular. Exclamo “Ah, Mr. Darcy!”, ao que Miguel pergunta de quem se tratava. Digo a ele que é um cara que a mamãe adora.

- É o homem mais bonito do mundo, ela grita lá da sala.

O rapazola, então, emenda de bate-pronto:

- Mas eu não me chamo Mr. Darcy!


E dá um sorriso de canto de boca. 


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Ponha-se no seu lugar!

Logo quando entramos na faculdade de ciências sociais, na disciplina “Introdução à Antropologia”, lemos um breve artigo do antropólogo Horace Minner intitulado “O ritual do corpo entre os Sonacirema”, povo que vive numa extensa porção de terra que vai do Canadá ao Caribe, e cujas “atitudes quanto ao corpo” têm tanta influência em suas instituições que a descrição de suas crenças e práticas mágicas joga luz sobre os extremos a que o comportamento humano pode chegar.

Na hierarquia dos profissionais da magia, e abaixo dos curandeiros em termos de prestígio, estão os chamados “homens da boca sagrada”. Os Sonacirema acreditam que a condição da boca possui influência sobrenatural nas relações sociais, assim, dentre os rituais do corpo, cotidianamente realizados por todos os membros do povo, há um rito bucal, consistindo na introdução de um pequeno feixe de cerdas na boca, juntamente com uma espécie de creme mágico e, em seguida, na movimentação deste feixe, segundo uma série de gestos altamente ritualizados. Os “homens da boca sagrada” são procurados, geralmente, uma ou duas vezes por ano e seu templo é assim descrito pelo antropólogo norte-americano:

“No seu templo este mago possui uma impressionante parafernália que consiste em uma variedade de perfuratrizes, furadores, sondas e agulhas. O uso destes objetos no exorcismo dos perigos da boca implica em uma quase e inacreditável tortura ritual do fiel e, usando as ferramentas citadas, alarga qualquer buraco que o uso tenha feito nos dentes. Se não se encontram buracos naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são serrados, para que a substância sobrenatural possa ser aplicada. Na imaginação do fiel, o objetivo destas aplicações é deter o apodrecimento dos  dentes e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do mito fica evidente no fato de que os nativos retornam, todo ano, ao ‘homem-da-boca-sagrada’, embora seus dentes continuem a se deteriorar”.

Para os neófitos que acabavam de entrar no maravilhoso mundo do relativismo cultural, da máxima de que nossa missão, como futuros fofoqueiros oficiais da sociedade, legitimados pelo diploma acadêmico, é estranhar o familiar e familiarizar o estranho, ler os rituais do corpo dos Sonacirema foi um bem-vindo soco no estômago. Coloquei em perspectiva meu etnocentrismo, minhas verdades, minha arrogância de que “nós” (?) estamos certos e os “outros” estão errados, que somos melhores que “eles”. Isto porque, como o leitor mais atento já percebeu, os Sonacirema são os Americanos e os “homens da boca sagrada” são os dentistas.

A descrição pormenorizada de Minner, sua etnografia detalhada de rituais aparentemente incompreensíveis, exóticos e selvagens, em nada parecidos com o que temos em “casa”, é a primeira lição de quem quer analisar honestamente os grupos sociais e a forma como vivem a realidade, sua cultura. Didaticamente, nos ensina que é fundamental estabelecermos um distanciamento intelectual e emocional do objeto a ser estudado/interpretado, embora seja admissível que a imparcialidade asséptica é, embora metodologicamente desejável, improvável de alcançar. Como já observado por outro antropólogo, Clifford Geertz, com relação à inevitabilidade da subjetividade na ciência antropológica, não é pelo fato de não podermos realizar uma cirurgia em ambiente inteiramente asséptico que devemos realizá-la num esgoto.

As reminiscências das primeiras lições de antropologia, lá se vão mais de duas décadas, me veio à cabeça a propósito deste tal de “lugar da fala”, expressão utilizada por grupos imbuídos de uma narrativa que, de um lado, pretende combater a marginalidade, os estereótipos e estigmas a eles associados e historicamente sedimentados na sociedade brasileira – mulheres, indígenas, negros, LGBT -, e, de outro, a afirmação de uma identidade positiva no espaço público carregada de simbolismo (exercício da cidadania cultural) e razão prática (mercado de trabalho).

Nesta lógica, quem está “dentro” das fronteiras do grupo tem legitimidade para falar “em nome” dele; quem está para além das fronteiras, não tem a palavra porque “não sente” e “não vive” aquilo que os membros do grupo sentem e vivem. Uma consequência possível nesta luta pelo poder de definir a representação simbólica a ser produzida e reproduzida interna e externamente, a “cara” do grupo, é a imposição de um discurso homogêneo repressor de vozes dissonantes, que condena a polifonia. O consenso, para quem se atribui o “lugar da fala”, é pré-condição para a manutenção da segurança das fronteiras do grupo, mantem o território puro, afasta o perigo da contaminação simbólica, da “sujeira” trazida por forasteiros imediatamente identificados como opressores, racistas, misóginos, elitistas.  

Parece-me que o “lugar da fala”, da forma como se apresenta hoje, é uma versão entortada do multiculturalismo que, em vez de ser retroalimentado pelo contato, pela fricção entre diferentes, caminha em direção à cristalização das identidades e, inevitavelmente, dos fundamentalismos de vários matizes – político, religioso, cultural. Branco fala de e para branco; preto fala de e para preto; indígena fala de e para indígena; mulher fala de e para mulher; evangélico fala de e para evangélico; judeu fala de e para judeu e assim por diante. Sem possibilidade de compartilhar vivências, de estabelecer pontos de contato, de ter a humildade de escutar e concordar com interpretações distintas da versão autorizada pelos “guardiães da verdade”. 


Pelo andar da carruagem, o ofício de antropólogo se tornará obsoleto mais cedo do que esperamos.